FUNDAÇÃO CULTURAL
DE CRICIÚMA

Jorge Eliecer Moreno Ferro

Jorge-Ferro.jpegJorge Eliecer Moreno Ferro (1964–2004) nasceu em Barranquilla, na Colômbia, e desde cedo teve uma vida marcada pela mobilidade internacional em razão da carreira diplomática de seu pai. Ainda na juventude, viveu em cidades como Nova Iorque, Beirute e Caracas, experiências que lhe possibilitaram o aprendizado de cinco idiomas e o contato com diferentes repertórios culturais. Entre 1981 e 1984, iniciou sua formação em artes visuais na Escuela de Artes Visuales Cristóbal Rojas e no Instituto Universitário de Nuevas Profesiones, em Caracas. Em meados da década de 1980 mudou-se com a família para o Brasil e, no Rio de Janeiro, deu continuidade à sua trajetória acadêmica, cursando Arquitetura e Urbanismo na Universidade Santa Úrsula e Escultura na Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi aluno de nomes fundamentais da arte brasileira, como Celeida Tostes, Roberto Burle Marx e Lygia Pape, além de frequentar cursos no Parque Lage e no MAM-RJ. Nesse período, participou de coletivas importantes, como a exposição Jovens Artistas Contemporâneos Latino-Americanos (1987), e conquistou prêmios como o Novos Talentos da UFF e a premiação no Concurso Monumento às Vítimas da América Latina da UFSC.

O interesse pela experimentação material marcou toda a produção de Ferro. Suas esculturas exploraram diferentes suportes, do ferro fundido, alumínio, cobre e zinco ao vidro, concreto, cera de abelha e barro, além de elementos alternativos como o sal grosso, sempre em diálogo com a performance, a instalação e a apropriação. Esse hibridismo se estendeu também ao bidimensional, com incursões no desenho, na gravura e na fotografia, atravessados pela influência de sua atuação no design e na arquitetura.

O ano de 1995 foi decisivo em sua carreira, quando conquistou o Prêmio Cecrisa-Portinari de Design em São Paulo. Essa premiação o trouxe a Criciúma, onde iniciou uma intensa colaboração com o setor cerâmico. A partir de 1996, estabeleceu residência na cidade, passou a lecionar na UNESC e se envolveu com a Fundação Cultural de Criciúma e o Centro Cultural Jorge Zanatta, ao lado de artistas como Rosângela Becker, Edi Balod e Jussara Guimarães. Nesse contexto, Ferro não apenas contribuiu para a inserção da região no circuito nacional das artes, como também fortaleceu a relação entre criação artística, design e indústria cerâmica, pesquisando novos formatos, esmaltes, texturas e possibilidades de aplicação estética.

Entre 1997 e 2003, sua produção alcançou projeção nacional. Realizou individuais como Spatium Essentia (Centro Cultural Itaú, Brasília), Entrês (Campinas) e Nodu Vitale, Vitale Nodu (Criciúma, Itajaí, Lages e Joinville), além de participar de salões e bienais de relevância, como o Victor Meirelles, o MARGS, o CCSP e a Bienal de Gravura de São José dos Campos. Em paralelo, atuava como professor e articulador cultural, sendo referência para uma geração de estudantes que, como lembra Bel Duarte, encontraram em Ferro a introdução a uma arte contemporânea híbrida, aberta e crítica.

Segundo Néri Pedroso (2005), Jorge Ferro foi “o artista que colocou o Sul do estado no mapa nacional”, expressão que sintetiza a força de sua trajetória. Seu trabalho unia inquietações político-sociais a uma pesquisa estética singular, propondo “a convergência de matéria e simbolização, com cosmologias, cosmogonias e tradições” (MASC, 2018). Exemplo desse diálogo entre arte e identidade regional é o monumento Fita Contínua, instalado na Praça do Chaminé, em Criciúma, que materializa em ferro fundido a memória da mineração de carvão.

Infelizmente, a trajetória promissora foi interrompida em 2004, quando Ferro faleceu em um acidente de carro aos 40 anos de idade. Desde então, sua obra tem enfrentado problemas de preservação e visibilidade: parte significativa encontra-se dispersa em coleções públicas e privadas, outras produções foram danificadas ou mesmo descartadas por falta de espaços adequados de conservação. Episódios polêmicos, como a aplicação de tinta dourada em suas esculturas durante a Festa das Etnias de 2019, revelam o descaso institucional e a fragilidade das políticas de patrimônio na região.

Ainda assim, o legado de Jorge Ferro permanece vivo. Para colegas como Edi Balod e Daniele Zacarão, ele está entre os maiores nomes da arte do extremo sul catarinense, ao lado de Berenice Gorini, Jussara Guimarães e Gilberto Pegoraro. Reconhecido pelos pares, pelos críticos e pelas instituições, Ferro simboliza a potência e, ao mesmo tempo, a vulnerabilidade da produção artística da região: potência pela relevância nacional conquistada; vulnerabilidade pelo esquecimento e pela ausência de políticas de preservação cultural. Sua memória, embora fragilizada, segue como referência indispensável para compreender o percurso da arte contemporânea em Criciúma e no sul de Santa Catarina.

Texto realizado a partir de trechos da pesquisa “MIZIESCKI, Mikael. A arte contemporânea do extremo sul catarinense: Poéticas, movimentação e desafios patrimoniais. 2021. 2021. Tese de Doutorado. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade, Programa de Pós-Graduação em Patrimônio Cultural e Sociedade)–Universidade da Região de Joinville, UNIVILLE, Joinville.”

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